O Que Nos Separa?

P. Krishna

 

               Uma das maiores preocupações de Annie Besant como teósofa, foi a criação de uma fraternidade universal do homem. Ela tentou durante toda sua vida ensinar que toda vida é sagrada, que todos os seres humanos são iguais, que diferentes religiões têm apenas abordagens diferentes à mesma verdade, e que toda vida e todo meio ambiente ao redor da terra constituem um todo do qual o homem é uma parte intrínseca. O maior perigo para a criação da fraternidade universal é a tendência do homem para identificar-se com quem parece ser semelhante a ele. Isto dividiu o gênero humano em muitos grupos – grupos religiosos, nacionais, profissionais, políticos e familiares – e todos eles, de tempos em tempos, se tornam antagonistas a outros grupos quando percebem que seus interesses precisam ser defendidos. O desejo de um indivíduo de pertencer a um grupo vem do sentimento de segurança que isto lhe dá. Mesmo assim, é óbvio que esta mesma divisão em grupos criou na terra o maior sentimento de insegurança para todos os seres humanos por guerras, tumultos, lutas e competições. A despeito de todos os ideais de unidade e de fraternidade universal, está claro que a raça humana ainda está, na maioria, movendo-se na direção oposta. Em anos recentes testemunhamos a separação de países como a Rússia, Iugoslavia e Checoslováquia com muita violência e crueldade. Também na Índia houve tendências separatistas em Kashimir, Punjab e Assam, e persiste a divisão hinduísta-muçulmana.

               Todas as divisões entre pessoas surgem do sentimento de que ‘nós’ somos separados ‘deles’, que por sua vez vem do sentimento de ser ‘diferente’. Mas somos realmente diferentes ou apenas imaginamos ser diferente? Examinemos o assunto cientifica e objetivamente com exatidão, sem defender um dos lados, nem ficarmos emocionados com religião ou cultura. Vejamos os seres humanos que parecem estar divididos. Podemos nos referir a hindus, muçulmanos, árabes, judeus ou a qualquer outro grupo de pessoas e perguntar se suas diferenças são reais ou imaginárias. Um ser humano tem um corpo e uma consciência. E assim, somos realmente diferentes em nossos corpos e temos uma consciência muito diferente? Se perguntarmos a um médico ou a um biólogo se existe diferença significante no corpo e eles nos dirão que estas são muito superficiais; a cor da pele e do cabelo pode ser diferente, mas dentro da pele o sangue, o coração, o fígado e os pulmões tudo é igual. Podemos trocar o sangue de uma pessoa com o de outra, de qualquer nação, de qualquer religião, de qualquer parte.

               Da mesma forma, somos realmente diferentes uns dos outros em nossa consciência ou simplesmente temos idéias diferentes, que adquirimos em nossa cultura particular? Se um ser humano for destituído de todas suas posses; sua casa, sua propriedade, seu conhecimento e olharmos o conteúdo de sua consciência, ele é realmente diferente de outro ser humano? A consciência do homem pobre é muito diferente da do homem rico? A consciência de um hindu, do muçulmano, do judeu, do americano ou do índio é diferente? Estou me referindo ao que realmente somos, não a nossas lembranças, não ao que acumulamos. Se olharmos além da superfície, descobrimos que cada ser humano tem os mesmos sentimentos, medo, insegurança, solidão, desejo de ter sucesso na vida, de ser alguém. Cada ser humano tem desejos e luta para realizá-los e estar à altura deles. Um pode desejar isto, outro homem pode desejar aquilo. Um pode reverenciar de uma maneira, outro, de maneira diferente, mas a necessidade de cultuar, as necessidades psicológicas do ser humano e os instintos, todos são os mesmos.

               É como se uma onda na superfície dissesse a outra onda: ‘Sou diferente de você’, só porque há uma pequena diferença de altura, forma e velocidade com que se move. Se conhecêssemos as profundidades do oceano, veríamos que estas diferenças são triviais e não significam muito. Porque damos muita importância ao superficial é que sentimos e pensamos que somos uns diferentes dos outros. Se estivéssemos cientes das profundezas de nossas consciências, do que somos como seres humanos, não apenas as idéias superficiais de conhecimento na mente consciente e o todo de nosso ser, seriamos exatamente como a onda no oceano. Ela é de água, tem 11.250 metros de profundidade no oceano comum a todas as outras ondas, mas se sente diferente apenas porque na superfície é um pouco diferente!

               Onde quer que vejamos divisão, onde quer que nos sintamos separados vemos todas as coisas de maneira muito fragmentada, estreita, limitada e de maneira superficial. A divisão entre ciência e religião também surge porque damos a estes assuntos significados muito reduzidos. A ciência é a busca do homem para descobrir a ordem manifestada no mundo externo de matéria e energia, e a busca religiosa é para descobrir a ordem no mundo interno de nossa consciência. Na verdade não há divisão ou antagonismo entre elas – como também em tudo mais. Fatos e realidade não separam, mas as ilusões que nossas mentes constroem a seu redor, separam. A divisão é criada por nossa mente porque ela não vê as coisas factuais, faz conjeturas, tem opiniões, preconceitos e predileções associadas com o que observa. Para superar isto a sociedade cria novas ilusões para unir as pessoas. Na Índia, quando a situação interna está difícil, as pessoas lutam entre si e se separam, a maneira de uni-las é falar de nacionalismo e dizer que o Paquistão é o maior inimigo e então, por este ódio comum as pessoas se unem; mas entre eles estão separados baseados em casta, religião e todo tipo de diferenças superficiais às quais dão muita importância. Quando todas estas divisões existem, é necessária outra ilusão para juntar as pessoas e dizer que é unidade, integração. Mas não é. É apenas outra ilusão. Provisoriamente pode parecer unidade, mas isto não é unidade real.

               Os fatos não dividem e se não há realmente divisão, não é necessária a integração. Assim torna-se fútil a questão de como integrar pessoas da Rússia. Elas não estão separadas. Elas apenas pensam que estão separadas por ignorância, e é a ignorância que deve ser dissipada. Não precisamos fazer propaganda de união. A coisa mais importante que os sábios indicaram e que devemos compreender é desfazer a ignorância e as opiniões superficiais de uns e outros e da vida.

               Infelizmente na atualidade, primeiro somos educados com preconceitos – estou usando a palavra ‘educação’ não apenas no sentido do que recebemos na escola, mas também de outras influências, família, televisão, etc. – que são perpetuadas pela tremenda inércia da sociedade. Tomemos o exemplo do sistema de castas na Índia. Começou há mais ou menos cinco mil ou mais anos. A sociedade indiana foi então dividida em quatro castas diferentes. Não sabemos bem porque, ou qual era a intenção na época. O que sabemos é o que temos agora. O governo tenta eliminar a discriminação entre castas dizendo que todas as pessoas devem ter oportunidades iguais e que as profissões não devem ser restritas a determinadas castas. Esta é a lei, mas o sistema continua porque em cada família a criança cresce vendo a discriminação a seu redor. A pessoa de casta inferior é tratada de certa maneira. Ela vê que as pessoas não casam fora de suas castas e isto é o que ela compreende do ambiente. Não podemos dizer nada na sala de aula, mas o que se vê na sociedade tem uma influência muito maior em sua mente, ela cresce com isso e adquire preconceitos sem se dar conta de que é um preconceito. Para ela, isto é um fato, é a realidade. Este é um exemplo, mas podemos ver que acontece o mesmo em cada sociedade, em qualquer lugar. Por isso os americanos continuam a ser americanos; os indianos, indianos; e os cristãos, cristãos.

               Criamos a nova geração a nossa imagem. Pode haver pequenas mudanças de idéias aqui e ali, mas em geral a nova geração se espelha na imagem da geração anterior e assim vai se repetindo ao infinito, o que significa que transmitimos todos nossos preconceitos a nossos filhos! Não nos damos conta disso. Pensamos que os amamos e queremos o seu bem, mas precisamos examinar e questionar para que não aceitem nada que até agora inquestionavelmente aceitamos. Nossa intenção pode ser boa, mas se a educação se baseia na ignorância, ela é falsa e realmente podemos estar prejudicando nossos filhos quando os educamos como consideramos certo. Neste mundo, se os judeus tiverem apenas crianças árabes, e os hindus tiverem apenas hindus, os velhos morrerão e os jovens vão crescer com a imagem dos antigos e o mundo não mudará.

               Assim, o que vamos ensinar a nossos filhos se não o que aprendemos? Podemos torná-los cientes deste problema? Enquanto os educamos, enquanto lhes transmitimos as tradições que aprendemos de nossa família, não desmotivá-los após terem questionado, e poderemos ao mesmo tempo encorajá-los a fazer perguntas, pedir-lhes que não se conformem, mas investiguem, descubram a maneira certa, o que é verdade e não aceitem cegamente? Esta é única maneira que o ser humano pode mudar no sentido fundamental. Podemos mudar política ou economicamente, e o fazemos, mas isto é comparativamente trivial. Em vez de três países, podemos nos tornar dez, mas isto não findará com as divisões que surgem na mente ignorante. Até que a ignorância seja desfeita, a mente vive com ilusões e esta se dividirá, quer seja entre países ou entre o homem, sua esposa ou família. No momento, não apenas transmitimos nossos preconceitos, mas criamos grupos ao redor de um preconceito comum. Podemos ter certa noção de Deus recebida na infância, mas ela pode ser uma ilusão. Ao redor desta ilusão juntamos muitas pessoas que também acreditam nela. Da mesma maneira outro grupo cresce ao redor de outra ilusão.este grupo se sente separado daquele grupo e assim toda divisão se baseia na ilusão. E então falamos em tolerância: ‘Você deve respeitar a outra pessoa por suas idéias, estas idéias não são piores do que as suas e assim por diante!’ A tolerância significa que não gosto de você, mas vou conviver com isto, e consideramos que isto seja uma virtude porque não queremos viver com fatos e eliminar divisões, porque somos muito apegados a nossas próprias ilusões!

               E podemos não querer pertencer a qualquer grupo ao redor de uma ilusão E como teósofistas também somos um grupo? Qual é a diferença? Se pensarmos que a Teosofia sejam respostas e conclusões com as quais todos concordam, na verdade criamos um novo grupo, uma nova religião e assim uma nova divisão na sociedade. Mas se consideramos a Teosofia não como um corpo de respostas ou instruções a serem obedecidas, mas como uma abordagem da vida, uma abordagem que diz que quer descobrir o que é verdade, descobrir o que é certo. Não querer ver as coisas fragmentadas, mas holisticamente, então estudamos a vida, e isto não é um grupo que separa. Não temos respostas, e assim nada há para propagar. Apenas sugerimos que abordar o problema ou uma questão como estudante é uma boa maneira de abordar a vida. Não é importante viver com conclusões, é importante viver com indagações, com um sentido de mistério, com a humildade que ver e saber que não sabemos. Aceitemos que não sabemos e estejamos dispostos a investigar.

               É necessário ter uma resposta? Não é suficiente viver com uma investigação prestando atenção à vida? Perguntamos por que sempre queremos uma resposta. Isto também é algo a que ficamos condicionados? Se for assim, a investigação se torna um processo de efetivação do desejo, embora um desejo nobre, de ter uma resposta. E como saberemos que tivemos uma resposta verdadeira? Pode bem ser que apenas fiquemos satisfeitos com determinado preconceito. Muitas vezes as coisas parecem ser verdade quando não o são. Estou certo que todos nós, se olharmos o passado, vamos descobrir que nossas idéias mudaram, nossas opiniões mudaram, e como podemos dizer que elas não mudarão mais? Somos apegados a nossas atuais opiniões mas que valor elas tem?

               Vejamos os fatos e duvidemos de todas as opiniões, mantendo-as como uma  tentativa, sabendo que elas podem surgir da ignorância, sabendo também que se nos apegarmos a elas, a determinadas respostas, conclusões e crenças, criamos uma nova divisão no mundo. A fraternidade universal do homem não é um ideal, um lema, mas um fato. Não é que como teosofistas acreditemos na fraternidade universal, mas a outra pessoa é nosso irmão. Na realidade Krishnamurti foi mais longe, ele disse que a outra pessoa é você mesmo – não seu irmão, você mesmo. E qual é a diferença? Da mesma maneira que a onda é diferente de outra onda do oceano, da mesma maneira somos diferentes uns dos outros. Buddha expressou isto com outra analogia. Ele disse que um ser humano é diferente de outro apenas como uma vela difere de outra vela, e que a diferença é, o que a vela é agora e como era anteriormente. Porque com tempo e experiência nossas idéias, nossos condicionamentos sempre mudam e a diferença entre você e eu é também apenas a diferença de condicionamento.

               Se soubermos que somos parte do total fenômeno misterioso da vida, favorecidos com as faculdades que a mente humana possui, usemos estas faculdades para entender nossos relacionamentos com o mundo, com nossos semelhantes, a entender quem somos e o que é nossa vida; pois a vida é uma investigação na qual usamos estas faculdade. Tome uma delas, tome o pensamento.

               Toda investigação intelectual é baseada no pensamento, que é limitado, porque o pensamento funciona dentro do campo do conhecido. É como a vara no salto-com–vara. Neste esporte a pessoa usa a vara para impulsionar sua subida para transpor o obstáculo. Raciocínio e pensamento são como a vara. No momento certo devemos abandonar a vara se quisermos atravessar para o outro lado. Raciocínio e pensamento não nos levarão todo tempo, mas são importantes faculdades que nos levarão a investigar até certo ponto. E nem sempre estamos atentos a isto, nem usamos o pensamento para investigar. Primeiro escolhemos as respostas oferecidas, depois nos alinhamos com determinada resposta, formamos um grupo a seu redor e usamos o pensamento durante toda nossa vida para defender determinada visão que escolhemos. E isto é o que cria divisões no mundo – o uso errôneo do pensamento. O propósito da faculdade de pensar, de raciocinar, de imaginar não é criar muros a nosso redor. E então, como vamos usar o pensamento? Vamos pressupor que a verdade é o desconhecido e investigá-la, ou vamos nos alinhar com alguma opinião que alguém, grande ou pequeno, disse ser verdade? Se nos juntarmos a determinado grupo e fizermos propaganda do que dizem ser verdade, todas nossas habilidades e inteligência estão sendo usadas como a de um advogado. Isto é exatamente o que faz um advogado que cobra por seu serviço. O pagamento que recebe é segurança ilusória desse grupo – ilusória porque a formação de grupos cria maior insegurança no mundo. Diz o advogado: ‘defendo apenas meu cliente, ele tem direitos e me paga’. Ele não usa sua inteligência para descobrir quem cometeu o crime, quem estava errado, mas só argumenta que seu cliente está certo. Fazemos a mesma coisa quando investimos nossa felicidade num determinado grupo ao redor de nossa crença particular, e isto cria divisão. Assim nossas ilusões, nossa ignorância é que nos separa.  Na realidade não existem divisões e se dissipamos nossa ignorância não precisaremos integrar e propagar a fraternidade universal.