|
Aprendemos com Krishnamurti que se realmente queremos
compreender uma questão não devemos formar opiniões a respeito dela, nem
tomarmos partido de um ponto de vista particular; devemos começar com perguntas
e confiar na observação dos fatos. As
questões fundamentais e profundas são exploradas com uma percepção passiva que
pode descobrir as verdades que subjazem toda questão. A Sociedade
Teosófica, por sua vez, diz que não há religião superior à Verdade. A partir daí a nossa mente
pode compreender melhor, com sabedoria,
transformando a visão com a qual se olha a vida. Por isso é muito
importante explorar as raízes do conflito O que
exatamente queremos dizer por paz e conflito? Neste
momento muitas pessoas diriam que estamos atravessando um período de paz porque não há uma guerra global em andamento. Sendo
assim, será a paz apenas o intervalo entre duas
guerras? E o que queremos dizer por guerra? Geralmente
chamamos de guerra quando as armas começam a atirar e
existe conflito armado. Mas será realmente paz o
período anterior a uma guerra? Não será o ódio entre duas comunidades – sejam
elas nacionais, religiosas, de casta, classes sociais ou de comunidades
linguísticas – uma forma de guerra psicológica que aumenta em sua manifestação
externa e que eventualmente leva ao estado de beligerância físico? Onde eu traço a linha e digo que é um conflito? Não existe
uma fronteira tão bem definida; existe uma fronteira somente na
manifestação externa desse ódio. Já que um leva ao outro, as
raízes do conflito não jazem apenas nas especificidades da situação que gerou o
conflito. Esses fatos não são irrelevantes; eles devem ser verdadeiros,
mas não parecem ser a raiz do conflito. Assim,
se estamos falando a respeito de uma paz duradoura e
não de uma paz temporária, a pergunta adquire uma importância muito mais
profunda. Temos de cavar profundamente para compreender.
Se não fizermos isso, então nossa existência torna-se uma série de conflitos e
teremos desenvolvido vários mecanismos para a resolução do conflito. O conflito
não é um problema novo para a humanidade. Lemos a respeito do Mahabharata, que
é pré-histórico, mas até onde vai a história conhecida, sempre
tivemos guerra e conflito em diferentes partes do mundo, e ainda estamos tendo
agora. Resolve-se um problema num lugar e ele surge em outro. Quando aparecem
circunstâncias favoráveis, elas dão surgimento a um
novo conflito, seja grande ou pequeno. Você pode ser bem-sucedido em
controlá-lo, mas a causa principal do conflito não jaz nessas circunstâncias
porque as circunstâncias são sempre variáveis. Sendo
assim, onde está a principal causa do conflito? Não seria
importante examinarmos de onde essas sementes vêm, e se podem ser eliminadas?
Podemos não saber a resposta, mas devemos fazer a
pergunta com seriedade. De outro modo, estamos não apenas aceitando-a como parte inevitável da vida. Você pode
dizer que é inata à natureza humana, algo de que jamais será possível nos
livrarmos. Estivemos fazendo isso durante cinco
mil anos de várias maneiras. Tentamos a reforma política;
estamos tentando a reforma econômica e da legislação; também tentamos a
religião organizada em torno dos ensinamentos de um grande sábio, tentamos
seguir a mensagem de amor e compaixão, chamando a nós mesmos de seguidores de
Gandhi, Jesus, Buda, e assim por diante, mas nada aconteceu. Ao final de
todas as tentativas estamos onde estamos hoje, tal
como revelado diariamente nas telas da televisão e nos jornais. Este não é um problema simples. Por que os seres humanos não
foram capazes de resolver este problema durante
milhares de anos, embora tenhamos progredido muito em cada ramo de conhecimento
e em novas habilidades? Pensamos que somos muitos
inteligentes e de algum modo o somos. Mas não
fomos capazes de resolver os problemas do conflito e da guerra. Podemos
ver esta questão através da analogia de ter dor de cabeça todo dia e tomar uma
aspirina cada vez que ela acontece para se livrar do problema. Podemos dizer que este é um
modo inteligente de viver? Não esta,ps dizendo, 'não
trate do sintoma'. Se você tem uma dor de cabeça terrível,
precisa tomar uma aspirina, de outro modo não conseguirá pensar com clareza.
Assim, a aspirina pode ter seu lugar; mas se você se
torna dependente da aspirina, jamais irá livrar-se da doença subjacente. Assim,
estamos considerando: o que é a doença? Apesar do fato de pensarmos que somos
muito inteligentes, e que a inteligência vem sendo
aplicada no campo do conhecimento, da ciência e da tecnologia, por que será que
ela não foi capaz de resolver este problema? Desenvolvemos várias formas de
aspirinas para lidar com a dor de cabeça, mas não
fomos capazes de erradicar a doença. Será que isso deveria
permanecer sempre uma utopia, jamais se tornar uma realidade? O que
podemos tentar que não tentamos nos últimos cinco mil anos? Será
meramente uma questão de tentar a mesma coisa de uma maneira melhor? Convém que façamos as perguntas mais fundamentais e mais profundas
que dizem respeito à nossa educação e talvez à educação também da humanidade
para se viver de maneira mais sábia. Observamos que em todo o mundo
diz-se que os seres humanos são o pináculo da evolução, que somos muito
superiores a todas as outras formas de vida que surgiram antes de nós. Acredito que precisamos questionar essa presunção.
Certamente somos mais espertos, podemos compreender melhor do que os animais,
mas será que usamos nossa capacidade de pensar, de imaginar, de planejar, para a melhoria da
humanidade, para a melhoria da Terra, ou fomos mais destrutivos? A respeito do
dano causado à Terra, estamos lendo a cada dia sobre aquecimento global,
catástrofes ecológicas, etc. O que fizemos com a nossa própria espécie? Nenhum animal ou planta jamais destruiu outras espécies ou a sua
própria espécie tanto quanto nós. E contudo sentimo-nos superiores e
mais inteligentes! Estamos definindo inteligência em termos de poder? Talvez
sejamos mais poderosos do que os animais porque podemos matá-los, e
explorá-los. Se chamamos isso de inteligência, então não foi
inteligente expulsar os ingleses da Índia. Existe uma
definição biológica dada por Darwin que diz que inteligência é o que leva à
sobrevivência. Mesmo por essa limitada definição
biológica, podemos afirmar que somos mais inteligentes? Estamos buscando
a sobrevivência ou levamos toda a terra e o meio-ambiente à beira
do holocausto como não fez nenhum outro animal ou espécie? Acontecerá pela mesma razão dada por Darwin, ou seja, que uma
espécie desaparece quando é incapaz de se adaptar ao ambiente e não consegue
viver em harmonia com ele. Tornamo-nos 'inteligentes' demais para a
sobrevivência porque a sobrevivência não requer este
tipo de inteligência que estamos cultivando. As formigas e as baratas têm
sobrevivido mais tempo do que nós; elas não levaram o mundo à beira da extinção. Assim, somos realmente
inteligentes ou apenas definimos inteligência de modo não inteligente? Deixo para vocês esta questão fundamental. O ensino
superior condiciona nossa mente a pensar ao longo de certos sulcos estreitos.
Ele nos aliena do terreno das realidades do mundo em que estamos vivendo ao
compartimentalizar nosso conhecimento. Esse tipo de
inteligência pode não ser a inteligência que leva à sobrevivência e portanto,
pode não ser a verdadeira inteligência. Não estou
pedindo para que vocês acreditem nisso. Temos de
investigar, descobrir se é verdadeiro. Assim, existem muitas perguntas
que devemos fazer se realmente queremos chegar à raiz de todo esse problema do
conflito. Podemos continuar resolvendo-o superficialmente mas torna-se
necessário fazê-lo, precisamente porque não o resolvemos na
raiz, e portanto ele verdadeiramente jamais termina. Ao longo
dos anos a manifestação do problema tem crescido. A guerra é agora muito mais
perigosa do que era antes, mas a doença subjacente é a mesma: o ódio entre
comunidades humanas que gera conflitos. Dizem que a guerra começa nas mentes dos homens, e isso é verdade.
É onde está a raiz; e onde devemos atacá-la. O resto
segue como causalidade lógica. Assim como há causalidade na Natureza estudada pela ciência,
também há causalidade em nossa psique. A não ser que cheguemos à causa
principal e a eliminemos, o restante segue como um
corolário lógico, uma sequência inevitável. Portanto, não é
mera filosofia levar a cabo esta investigação; é uma necessidade urgente. Assim, onde começa esta divisão entre comunidades? Começa ao
se dizer, 'somos diferentes deles'. Cada comunidade sente que
'somos diferentes deles'. Como a mente define e
traça essa linha? Esta é outra questão fundamental. Quem são os 'nós' e quem são 'eles'? Baseada
em quê a mente traça essa linha? O Paquistão era parte da Índia 1947 e nós
amávamos o seu povo como nossos irmãos. Hoje, não serão eles
mais nossos irmãos? A fronteira é uma linha traçada sobre a terra, ou
estará a linha dentro de nossa cabeça? Vejo que o cão cruza a
fronteira sem necessidade de visto diplomático, o
vento sopra através das fronteiras, as florestas cruzam a linha, as cadeias de
montanhas atravessam. Não existe tal fronteira sobre a
terra! Acredito que ela é
uma criação de nosso próprio pensamento e também, certamente, de
nossa história. Prossigamos. Mesmo que eu veja que outra pessoa é diferente de mim, por que isso
cria divisão? Esta é outra pergunta que devemos examinar de perto:
quando uma diferença torna-se divisão, e por quê? A diferença
é natural. Somos todos diferentes uns dos outros: na
idade, na riqueza, no conhecimento, na cor da pele, na altura e na forma. Tudo na Natureza é diferente de tudo o mais. Assim,
a diferença é algo natural. A diferenciação é também
natural. Se eu não consigo distinguir uma árvore de um
edifício, há algo de errado comigo. Mas quando
isso se torna uma divisão? Será este um processo
inevitável, ou será um processo psicológico criado por minha própria mente?
Assim, será algo existente na Natureza, ou será uma
ilusão construída pela minha mente? A ilusão
é algo que não tem existência na Natureza; é
simplesmente uma criação de minha própria mente, minha imaginação, ou algo a
que estou dando enorme importância e que na realidade não é importante. Assim, estará o conflito sendo gerado da ilusão ou dos fatos?
O fato é que somos todos diferentes uns dos outros. Será a
divisão também um fato, ou será uma criação de minha própria mente, minha forma
limitada de pensar? Será o hindu verdadeiramente muito diferente do muçulmano? Esta é
hoje uma grande fonte de conflito na Índia. Estou
empregando isso como exemplo. Serão
essas duas comunidades de seres humanos verdadeiramente diferentes, ou será que
eles se sentem tão diferentes simplesmente porque pensam assim? O
pensamento pode mudar. Se eles descobrirem que seu modo de pensar é falso, a ilusão terminará. A ilusão pode
terminar pela percepção da verdade. Se você descobre que o
falso é falso, então o falso termina. Portanto, se a causa tem raízes na ilusão, a causa pode ser eliminada, mas quando a causa
não está radicada na ilusão não se consegue eliminá-la. Assim,
é importante investigar esta questão. Para
fazer uma analogia, se eu caio e quebro uma perna, isso me faz sentir dor. Essa não é uma dor psicológica; não é
criação da mente. O sábio sofre essa dor tanto quanto eu. Mas eu também sinto muita autocomiseração que o sábio não
sente. Assim, o sofrimento psicológico tem de ser separado da
dor, que é biológica. O sofrimento psicológico pode surgir da ilusão, de
uma imagem mental que não tem realidade, enquanto a
outra é factual. Quando você elimina isso, descobre que
existe desejo, existe apego, existe medo, existem todos os instintos que são os
mesmos em todos os seres humanos. Assim, onde estará a diferença? Apenas no
conhecimento, a camada superficial de condicionamento adquirida enquanto se
cresce nesta vida. Ele é diferente porque eu nasci
numa família diferente, numa cultura diferente, num país diferente, e ele
nasceu em outro. Essa camada superficial é chamada de
condicionamento da mente, o conhecimento adquirido nesta vida. Somente isto é diferente. Desta
forma, o hindu ouviu algo a respeito de Deus, ele
acredita no que ouviu e propaga-o como verdade. O muçulmano ouviu algo
diferente a respeito de Deus. Ele também não sabe o que é Deus, mas acredita no
que ouviu e propaga-o como verdadeiro. Assim, são essas ilusões que nos dividem. Se tivéssemos a
humildade de dizer a nós mesmos, 'eu verdadeiramente não sei o que é Deus', o
que é verdade, seríamos amigos inquirindo juntos o verdadeiro significado de
Deus! Não sabemos que não sabemos. Não é importante
dizer, 'eu sei'; é mais importante saber que você não sabe e viver com uma
mente investigativa que postula a verdade como o
desconhecido. Portanto, é importante reconhecer o valor da
dúvida, duvidar das próprias opiniões, das próprias conclusões. De outro modo, jamais teremos uma mente que aprende; jamais seremos
sábios. A paz requer uma mente global que sente pelo todo da terra e
pelo todo da humanidade. Essa é a realidade. Todas essas divisões surgiram por razões históricas, a partir de
nossa própria ignorância. Isso me leva ao que o Buda
assinalou há muito tempo. Ele disse que a ignorância é a causa da dor;
ignorância não como forma de conhecimento, mas como
ilusão. Vejo que essas ilusões são muito profundas, que mesmo meu sentimento de
que sou muito diferente do paquistanês, do americano ou do chinês tem raízes na ilusão. O nacionalismo está radicado na
ilusão e daí surge muito de nossa divisão e conflito. A raiz
do conflito jaz na ilusão; portanto, o conflito pode
terminar porque a ilusão pode terminar. Este é o lema da Sociedade Teosófica:
Não há religião superior à Verdade.
Quando você descobre o que é verdadeiro e o que é falso, a ilusão termina. Quando a ilusão
termina, a estreiteza da mente termina. Você não é mais um nacionalista, não é
mais um hindu de mente estreita; você sabe que não é
diferente de outro ser humano que provém de uma outra família. Você vê essa
diferença somente como uma diferença de cor de pele,
uma diferença de altura, diferença no tipo de alimentos que come, e isso não é
importante. Quando se da tremenda importância a isso,
está criada a divisão. Quando
os ingleses chegaram na Índia, eles menosprezavam os
indianos porque comíamos com as mãos e não com garfo e faca. Quando
o indiano vai à Inglaterra, ele pergunta, 'por que essas pessoas têm de comer
com garfo e faca quando têm dedos?' Ambas são apenas opiniões que surgem
do fato de um
homem ter sido ensinado algo e outro algo diferente. Isso é
tudo. Não há nada de superior ou inferior a respeito
disto. Assim, a divisão surge quando atribuímos superioridade ou
inferioridade a uma diferença, que é um tipo de
julgamento de valor. De onde a mente cria esse julgamento de
valor? Todas as diferenças não criam divisão. Nunca
tivemos guerra entre pessoas altas e pessoas baixas,
pelo menos até agora! Não somos tão estúpidos assim! Às vezes
vemos uma diferença somente como diferença. Mas quando
se vê um homem praticando Namaz (adoração) e outro orando no templo, vê-se mais
do que apenas uma diferença e desenvolve-se 'gosto e aversão'. Por que a mente
não percebe isso apenas como uma diferença? Quando a diferença torna-se divisão, e por quê? É um processo psicológico. A diferença é
natural; ela não é psicológica. Se eu não noto que o homem da África é negro e que o homem da Europa é branco, algo está errado com
meus sentidos. Mas se eu disser que os brancos são superiores aos negros, eu me transformo num racista e ponho fim à
fraternidade universal do homem! Então, por que a mente diz
isso? Se você examinar verá que
isso ocorre porque abordamos as coisas com algum tipo de desejo em nossa mente.
Se eu lhe perguntasse se a figueira sagrada é superior ao eucalipto, como você responderia a essa pergunta? Você
diria que a figueira é uma figueira e que o eucalipto é um eucalipto. O
que você quer dizer por superior? Se você quiser sombra, a
figueira é superior. Se você quiser óleo de eucalipto,
então o eucalipto é superior. Mas se você não
quer coisa alguma, o que é superior? Assim, eu vejo que esse sentimento de
superioridade está ligado ao fato de eu querer que as coisas me sejam
favoráveis, e esta é
essência do processo egoico. Quando abordamos a vida de modo egoísta, então nossa nacionalidade,
nossa religião, é usada para construir nosso ego, para encontrar uma
identidade. Assim, podemos eliminar o psicológico e
permanecer somente com os fatos? É necessário estar perceptivo do perigo
deste processo psicológico, que significa estar perceptivo dos fatos para não
ficar preso na ilusão. Não será isso
inteligência? Porque se você não tem essa inteligência, fica preso na ilusão, é atraído à divisão, e começa a odiar
e a destruir o amor, a destruir a amizade. Mesmo irmãos que
cresceram juntos e muito próximos, ou amigos íntimos, separam-se ao lutar entre
si porque não têm essa sabedoria. Esse processo egoico surge de nossa abordagem à
vida, porque damos tremenda importância ao que recebemos das árvores, deste
país, de nosso amigo. A raiz
de todo conflito, tanto em nossa vida pessoal quanto na
sociedade, jaz nesse processo egoico dentro da consciência humana. O ego é
essencialmente um mendigo, sempre pedindo coisas para si em todo
relacionamento. Daí surge o gosto e a aversão,
divisão, e portanto conflito. Precisamos descobrir se é possível
aproximarmo-nos de todos e de tudo como um verdadeiro
amigo, não buscando nada desse relacionamento. Somente então
haverá um relacionamento de amor verdadeiro no qual não há divisão, e
consequentemente não há conflito. |