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Podemos
dividir o mundo em duas partes: o mundo material, estudado pela ciência e o
mundo interno de nossa consciência que, na maioria das
vezes no momento, está além da ciência. Se observarmos o mundo material de
espaço, tempo, matéria e energia que a ciência estuda em detalhes, certamente
veremos que em todo universo há tremenda ordem, que certas causas tem efeitos
definidos e que estes são governados por leis
precisas. Assim, qualquer que seja a condição atual, o
desenvolvimento futuro é determinado por estas leis e o único lugar em que há
alguma incerteza é no mundo subatômico das partículas elementares. A extensão em que se desviam da certeza também é definida
pela ciência. Na maioria das vezes não estamos lidando com
partículas subatômicas, exceto em laboratórios experimentais, onde as leis são
bastante determinadas. Os
cientistas estudaram muitas leis, as físicas, as químicas e as biológicas que
governam tanto a matéria animada como a inanimada. Podem explicar amplamente o comportamento dos corpos das planas,
dos animais e também dos seres humanos. Se começamos com condições
iniciais diferentes, o desenvolvimento será diferente, mas
será governado pelas mesmas leis. A ciência afirma que estas leis são
universais, são eternas e com base nestas afirmações podem projetar todo o
desenvolvimento do universo. Isto ainda não é aceito em todos seus detalhes,
mas a ampla estrutura é razoavelmente correta, porque
explica e até prediz muitos fatos corretamente observados. Naturalmente
há situações nas quais operam múltiplas forças e torna-se difícil predizer o
que acontecerá no futuro, mas isto não significa que as leis não operem ou que
o presente não molde o futuro. Disse
Einstein: “Tudo é determinado por forças sobre as quais não temos controle; é
determinado pelos insetos bem como pelas estrelas, seres humanos, vegetais ou
poeira cósmica. Todos nós dançamos sob uma misteriosa melodia entoada à
distância por um invisível flautista.” Penso que isto não é inteiramente verdade para os seres humanos.
Penso que Einstein não levou em conta a consciência humana,
porque se ela também fosse predeterminada, não haveria coisas morais ou
imorais, certo ou errado. Se um tigre mata
outro animal é governado apenas por seus outros instintos e não há decisão de
sua parte. No caso dos seres humanos os instintos tornaram-se tendências. E
quando um cão late para nós, não nos sentimos agredidos, mas se nosso chefe
grita conosco, ficamos ofendidos! Isto nos traz a questão: temos ou não livre
arbítrio? Os seres humanos são livres ou as leis da física, da química e da
biologia determinam totalmente, não apenas nosso corpo, mas
também nossos pensamentos, nossas decisões e atitudes? Os
próprios cientistas dizem que, se o nível do bióxido de carbono na atmosfera
aumentar até certo limite, o conseqüente aquecimento global terá tais
proporções que as calotas polares se derreterão, os mares serão inundados e
haverá uma imensa catástrofe ecológica se continuarmos a viver como vivemos no
momento. Até previram a data em que isto ocorrerá. Por
isso alertam a não usar combustível fóssil e não jogar
bióxido de carbono na atmosfera, e usar fontes alternativas de energia. Enquanto
a evolução biológica é um fato e a evolução material
também pareça um fato, isto também será verdade para nossa consciência e
psiquê? Precisamos examinar isto detalhadamente. Os
cientistas estudam a evolução biológica. Podem
determinar a origem de diferentes espécies e o período em que existiram e
descrever estes desenvolvimentos no tempo. A evolução biológica é amparada pelo estudo de fósseis em
rochas, cuja evidência não pode ser refutada. Assim, há evolução no conhecimento, há
evolução no mundo material e há evolução biológica durante longos períodos de
tempo. Também acontece o mesmo com nossa psiquê? O estado
psicológico do ser humano de hoje é muito diferente daquele do homem primitivo,
digamos, do homem de mil anos atrás? Eles formavam grupos, tinham apegos,
ambições, desejos, medo, autoridade e domínio, e tudo de que ainda está na consciência humana. Após mil anos, o que desejamos agora
pode ser diferente do que foi desejado antes, nossos grupos agora são de grande
nações e não de tribos ou clãs, mas ainda estamos
divididos em grupos. Cada ser humano ainda é apegado a seu
grupo, trabalha para a prosperidade e melhoria desse grupo e para isso explora
outros grupos. A fraternidade universal é uma nobre
ideal proposto há milhares de anos, mas não se tornou um fato. Assim, parece que psicologicamente não crescemos; houve apenas uma
pequena evolução psicológica. Certas formas de manifestação do ego ou
formas extremas de egoísmo podem ter desaparecido: o colonialismo e a ocupação militar de outras nações quase desapareceram, mas
a violência, a guerra, os tumultos e os crimes estão bem vivos. Constantemente os governos, as Nações Unidas e outras organizações
não poupam esforços tentando controlar as manifestações deste estado
psicológico. Significa que nosso estado psicológico produz as coisas que
acontecem na sociedade. Por isso
existem certas áreas nas quais dificilmente houve algum desenvolvimento no
tempo. Tomemos alguns exemplos. Se observarmos a nosso redor,
descobrimos que cada ser humano tem acesso a certas coisas, certo conhecimento,
relacionamento, dinheiro e outras coisas, e há coisas que ele não tem. Todos nós estamos parados numa fila; de um lado estão as coisas a
que temos acesso, e do outro as coisas a que não temos acesso. Cada ser humano está fazendo um grande esforço para empurrar a fila
e trazer outro objeto para seu lado para que possa acessá-lo por prazer ou
conveniência. E isto é o ele está fazendo há dez anos.
Assim, toda humanidade parece estar no mesmo estado psicológico: descontente
com o que tem e buscando algo que não tem. O solteiro procura uma esposa e
provavelmente o casado quer se livrar da sua! Logo, varia o objeto do desejo, mas o desejo sempre está aí. Antes de
começar a conquista do mundo, Alexandre foi a Diógenes, conhecido na Grécia como um homem muito sábio, para ser abençoado.
Disse: “Aventuro-me no mundo e começarei pela conquista do Irã e do Oriente
Médio.” E Diógenes lhe perguntou: “E o que fará depois disso?” Alexandre disse:
“Bem, depois disso vou conquistar o Afeganistão.” “E depois disso, o que fará”
e Alexandre respondeu: “Vou conquistar a Índia.” E
Diógenes outra vez perguntou: “ E o que fará depois
disso?” E Alexandre respondeu: “Vou conquistar a China.” “E o
que fará depois disso?” “Bem, então talvez volte para
casa.” Então Diógenes lhe perguntou: “O que o impede de fazer isto
agora?” Como Alexandre, também somos
ambiciosos. Nossa sociedade estimula a ambição, a competição
e todas as conseqüências do desejo. Quando desejamos algo que
não temos, trabalhamos ambicionando consegui-lo, e poderemos ou não obtê-lo.
Se não o conseguimos, ficaremos frustrados, depressivos.
Se conseguirmos realizar nosso desejo, temporariamente nos
sentimos realizados, o que alimenta nosso ego. Segue-se
um período de estagnação, de pouca energia, porque o desejo desapareceu e ele
nos dava energia. A situação é esta até que surja um novo desejo que nos
dê energia. E este ciclo vai se repetindo muitas
vezes! Observe
que em você e nas pessoas a seu redor, e verá que este
é o estado humano normal. Logo, todas as conseqüências do desejo e da ambição
estão aí, desde o tempo de Alexandre até agora! Portanto, a sociedade não mudou
a este respeito. Agrupamentos, lutas, guerra,
construção de armas de defesa, continua tudo que brota do estado psicológico de
dividir ‘nós pessoas’ de ‘outras pessoas’. Não
compreendemos em que base nossa mente define quem ‘nós’ somos e quem ‘eles’
são. Porque certas diferenças se tornam divisões e criam ódio, enquanto outras
são aceitas apenas como diferenças? Por exemplo, não
tivemos guerras entre pessoas altas e baixas, pelo
menos até agora. Não somos tão tolos! Mas tivemos guerra
entre um e outro grupo religioso. Os seres humanos não foram capazes de
compreender este processo psicológico que converte as
diferenças em divisões e que impede a fraternidade. Isto
porque, quando odiamos alguém e sentimos que ele é nosso rival, não podemos ser
fraternos. Podemos falar de fraternidade universal,
mas enquanto a mente não se livrar da identificação com o ‘me’ e o ‘meu’, a
fraternidade nunca se tornará um fato. Na verdade nunca se tornou um
fato, sempre foi um objetivo, mesmo na Sociedade
Teosófica. Simplesmente acreditar não o torna realidade. Internamente
em nossa consciência, somos psicologicamente muito diferentes do homem de mil
anos atrás? Não parece ser assim. Neste
sentido, psicologicamente o futuro é agora. Porque se psicologicamente
formos como o homem de mil anos atrás, outros dez mil
anos se passarão e, se sobrevivermos, continuaremos a ser os mesmos. Pelos mesmos motivos que não mudamos em mil anos, não seremos
capazes de mudar nos próximos mil anos. Isto
significa que o tempo não ajuda a mudar o estado psicológico do ser humano.
Neste sentido, o futuro é agora e não vamos depender do
tempo para mudar. A transformação da consciência requer uma
mutação que não é um processo no tempo. O que isto significa? Significa
que a causa na consciência não se altera gradualmente
com o tempo. Todas as emoções negativas como egoísmo,
competição, rivalidade, inimizade, ódio, raiva, ciúme, tristeza, etc., resultam
de algumas ilusões em nossa mente, e a menos que estas ilusões acabem, as
emoções negativas não sumirão. Isto é o que Buddha dizia há
mais de dois mil anos. Assim como os cientistas
têm as três leis de Newton, temos três leis psicológicas. A
primeira lei é que ‘o sofrimento existe’. Esta afirmação é de um fato observado. Se
observarmos a consciência humana veremos que aí há muito sofrimento psicológico
por que passam os homens. A segunda lei é que o sofrimento tem uma
causa: a ignorância como ilusão é a causa do
sofrimento. A terceira lei é o resultado da própria
experiência e aprendizado. Buddha disse que a causa pode ser eliminada.
E como a causa está na ilusão, ela pode ser eliminada.
Não podemos nos livrar da dor no corpo, que é uma reação
biológica produzida no corpo; mas o sofrimento emocional psicológico surge da
ilusão e pode ser eliminado. A ilusão não existe na
natureza, e não é governada pelas leis da natureza. É
construída pelo pensamento e pela imaginação. Apenas a
consciência humana é capaz disso, o animal não. Por
isso não vemos animais fazendo guerra, não encontramos tigres dizimando e
destruindo outras espécies. A ilusão pode findar pelo discernimento entre o verdadeiro e
do falso. Por isso diz a Teosofia: “A verdade é a suprema religião”, ‘verdade’ como uma percepção, e não a ideia de verdade ou o
conhecimento da verdade que é fácil obter. Podemos ler um livro
de Buddha e livros escritos sobre Buddha e nos tornarmos um professor da
filosofia budista, mas isso não vai transformar nossa consciência. O
professor de filosofia budista tem a mesma consciência que eu e você. Tem
tristeza, medo, ansiedade e ambição: seu estado psicológico não é diferente do
dos outros. O que era diferente em Jesus e Buddha é que eles realmente sofreram
uma transformação da consciência. Por isso, é necessário não apenas concordar
com a idéia ou opinião, mas ter uma real percepção,
como quando percebemos o perigo do fogo ou de um caminhão vindo em nossa
direção. Aí não precisamos de nenhum argumento para nos
afastarmos. C.W.
Leadbeater escreveu um artigo dizendo que nenhum engenheiro jamais fez um
modelo ou plano concluindo que a água fluiria para o
alto da colina porque estava claro que isto não poderia acontecer. Mas quando escutamos discursos religiosos vemos as pessoas
fazerem todo tipo de nobres afirmações enquanto suas vidas mostram justamente o
contrário. Isto demonstra o que não está claro para elas; apenas fazem uma ideação, um conceito
a nível do pensamento. Isto não se
tornará uma realidade até que por si mesmas percebam esta verdade. A busca religiosa é para encontrar esta realização, isto é, sentir
o perigo diretamente e não através de argumentos ou debates. A verdade,
a nível de ideação, é apenas propriedade mental: a propriedade pode se acumular
mas não transforma a consciência. Compreender
a verdade significa que ela é real para nós, e não apenas uma ideia.
Realmente esta é a essência da busca religiosa, que é
a busca da sabedoria diferente da busca por conhecimento. Há muito pouca
sabedoria na mente que vive com todo tipo de ilusões,
porque vive num mundo imaginário que ela própria criou e não tem contato real
com o mundo da natureza. Vejamos a natureza destas ilusões para ver esta verdade.
Observamos que na Índia há um imenso problema de morte
de fetos femininos; matam os bebês meninas antes ou logo que nascem. Por que as mulheres estão desaparecendo, produzindo um desequilíbrio
que eventualmente terá conseqüências desastrosas? Os homens não encontrarão
mulheres para casar e isto produzirá todo tipo de violência, que já acontece
agora. Quais são as ilusões por trás disto? Se
examinarmos, veremos que temos todo tipo de falsas noções em nossa sociedade,
apenas temos que aceitá-las sem questionar. Aceitamos
porque todos a nossa volta acreditam. Um indiano pensa
que seus filhos devem casar apenas dentro de sua casta; e é responsável pelo
casamento de suas filhas dentro dessa casta, a última
delas até os vinte e cinco anos. Em sua casta ele deve pagar um grande dote
para conseguir um bom marido para sua filha. Por aceitar
todas estas noções, sente que o nascimento de uma filha é um grande peso,
enquanto o nascimento de um filho é uma garantia de que no futuro ele será
responsável por toda família. O filho pertence a sua própria família,
enquanto a filha após o casamento pertence a outra
família. Para ele tudo isto parece ser realidade, embora sejam apenas
construções da mente humana sem qualquer realidade na
natureza. Assim, todas são ilusões. Alguém
introduziu o sistema de castas na Índia, talvez há
cinco mil anos. Até o Gita o menciona. Pode não ter
sido na forma que tem hoje, mas o que existe agora na
sociedade é a realidade; como era antes de cinco mil anos, não sabemos e não
adianta especular. O fato é como está funcionando
agora e que está criando muita discriminação, injustiça e crueldade. E podemos nos libertar disto? É algo atribuído à criança ao
nascer; não existe na natureza. Quando nasce, é apenas
uma criança: nem brhamana, nem sudra, nem cristã nem
hindu; tudo isto é jogado sobre criança pela sociedade e nossa mente aceita
isto. Desta maneira um indiano sente-se limitado. E por causa disso, mata suas filhas. Se
apenas compreendêssemos que não temos que aceitar isto, poderíamos dizer que
isto é falso. Mas o homem comum não está ciente de que na realidade todas estas ilusões em sua mente são a causa
por trás da morte das filhas. O instinto natural, que até os animais têm, é
proteger o filho, amar o filho, evitar perigo para o filho. Na verdade um homem
trabalha muito duro para juntar o dote da filha, pensando que isto é bom para
ela. Esta é a natureza da ilusão: quem está iludido não está ciente de que seja
assim. Todo medo, injustiça e tristeza surgem apenas das ilusões da mente. Isto é
um exemplo do que Buddha ensinou: somos autores de nossos sofrimentos. E
pensamos que os sofrimentos vêm de fora! Não aprendemos a nos observar e
perguntar por que estamos sofrendo e qual é a ilusão
de nossa mente. Ilusão significa aceitar como
verdadeiro o que não é, e que não é um fato na natureza. Damos tremenda
importância a algo que realmente não é importante. Mas o homem iludido não está ciente deste fato. Este homem sou eu e você. Podemos ser capazes de ver a ilusão de alguém, mas isto não significa que não tenhamos
ilusões. Assim como o homem que dá um dote à sua filha, colocando-a em perigo,
não nota que está iludido, e também nós, eu e você não estamos cientes das
ilusões que temos – a menos que examinemos nossos sentimentos, vejamos de onde
surgem e se for um sentimento negativo que surgiu de uma ilusão, podemos
eliminar esta ilusão. Esta é a verdadeira busca teosófica.
De outra maneira, não seremos livres. Podemos crer na fraternidade universal, podemos crer nisto ou naquilo,
mas que diferença isto faz? Faço uma
pergunta que devem considerar: se um homem é egoísta, violento, ambicioso e
cheio de ódio, qual diferença faz se for hindu,
muçulmano, cristão, budista ou ateu? E se um homem for bondoso, generoso,
pacífico, compassivo e carinhoso, que diferença fará se for hindu,
muçulmano, cristão, budista ou ateu? Então porque damos esta tanta
importância à afiliação de um ser humano? Li uma
parábola interessante que revela como este tipo de
classificação dos seres humanos em diferentes religiões, diferentes castas
[grupos], produz conclusões absurdas. Jesus Cristo nunca vira um jogo de
futebol e pediu a São Pedro: ‘Pode me levar a um jogo
de futebol? ‘ São Pedro respondeu: ‘Claro, arranjo
isto.’ E levou-o
para assistir a um jogo de futebol na Irlanda, onde o time dos católicos jogava
contra o dos protestantes. Jesus começou
a olhar o jogo e ficou muito interessado, pois nunca vira este
jogo. Após alguns minutos os católicos fizeram o primeiro gol e ele ficou
excitado e gritou: hurra! jogou seu boné para o alto e
bateu palmas mostrando sua alegria. O jogo continuou e ele continuava muito
interessado, e desta vez foi o time dos protestantes que fez o gol. Novamente muito excitado, gritou ‘hurra’, bateu palmas e jogou seu
boné para o alto. Vendo isto, um homem sentado a seu lado, intrigado com
sua atitude, tocou no ombro de Jesus e disse: ‘Diga-me, de qual lado você
está?’ Jesus respondeu ‘De nenhum lado, apenas aprecio o jogo!’ e o homem disse
então: ‘Ah! Um ateu!’ Continuamos
com estas divisões, com ambições e desejos como partes
inevitáveis da vida porque não examinamos com cuidado suas conseqüências e não
sabemos se as coisas podem ser feitas sem ambições e desejos, apenas por gostarmos
delas. Assim a mente continua com estas ilusões e as divisões e outras
conseqüências continuam e não há uma mudança fundamental na
sociedade. Neste sentido, o futuro é agora. A única
maneira em que isto realmente pode mudar, tanto em nossa vida pessoal como na sociedade, é se tirarmos estas ilusões de nossa
mente; mas a dificuldade é que não estamos atentos a nossas ilusões. As ilusões
que sabemos que são ilusões não criam desordem: por exemplo, os contos de
fadas. Sabemos que não
são verdade e quando sabemos que são apenas imaginários, por brincadeira
podemos aceitá-los. Da mesma forma podemos ter belas poesias, metáforas
e todas as coisas imagináveis, enquanto não as tomarmos como
realidades. Se as tomarmos por realidade, elas se tornam uma ilusão e criam
desordem na consciência. Como
teósofos é importante que tenhamos uma mente aberta que faça a distinção entre
o verdadeiro e o falso. Isto significa que quando temos uma emoção
negativa, quer de tristeza, medo, ciúme, raiva ou ódio devemos nos indagar: ‘De
onde surgiu isto, estou vivendo de maneira errada? Que ilusão
em minha mente fez surgir estas emoções negativas?” Livrar-se
das causas externas não é tão importante como eliminar
as causas internas de nossa psiquê. Fomos treinados para
sempre lidar com as causas externas, e por isso as causas internas continuam.
A aprendizagem interna é muito mais importante porque ela
sempre nos liberta. A tristeza não é encarada como um
infortúnio, mas como uma oportunidade para aprendermos sobre nós. Somos autores de nossos próprios sofrimentos, por isso só nós
podemos desfazê-los. Surgiram de nossos pensamentos,
de nossas suposições e, se descobrimos suas conseqüências, estas ilusões cessam
e há a possibilidade de uma verdadeira mudança. Esta
mudança não vai acontecer no tempo, não acontecerá gradualmente. Ou percebemos a verdade ou não a percebemos. Não podemos
descobrir vinte por cento da verdade, depois cinqüenta por cento e pouco a
pouco chegarmos a cem por cento, como ir subindo numa
montanha. Ora, a verdade entra na mente como uma
revelação instantânea, uma profunda percepção que produz a mutação da
consciência e quando isto acontece, estamos livres. O problema termina e não
precisamos controlá-lo. Precisamos controlar o problema
somente quando ele está surgindo, porque a causa ainda não foi eliminada. Por isso existem guerras no mundo, porque suas causas não foram
eliminadas. Vejamos a situação do Oriente Médio, entre árabes e judeus. Os árabes dizem a seus filhos que os judeus são seus inimigos e os
judeus dizem aos seus filhos que os inimigos são os árabes. Quando morrem os mais velhos, as crianças ficam com esta inimizade
ensinada desde o berço. E como poderá findar
esta divisão de ódio entre estas duas comunidades? Não findou
nos últimos sessenta e cinco anos e a situação continua exatamente a mesma.
Cada vez que surge um conflito, as Nações Unidas vão lá para estabelecer algum
diálogo, fazer algum acerto, mas todas as vezes a
pacificação não tem êxito. Certamente há uma causa mais profunda por trás
disso, e enquanto não eliminarem esta causa, o efeito continuará a aparecer. O fato é que não há grande diferença entre
árabes e judeus. Pensam que existe por terem diferentes
religiões, crenças, apegos, hábitos, alimentos, etc. Mas
estas são coisas muito superficiais; bem no fundo têm muito em comum. Têm os mesmos instintos, os mesmos problemas de desejo, ciúme,
ambição, medo e tristeza porque são seres humanos. Sentem-se diferentes
apenas porque dão tremenda importância a estas
diferenças superficiais, mas isto é uma ilusão. Buddha ensinou a verdade de que o outro sou eu. Se não parece ser assim é porque a mente está cheia de ilusões que
nos separam, e enquanto persistirem estas ilusões não haverá mudança no estado
psicológico, não haverá evolução psicológica; por isso o futuro é agora.
Há mudança real só quando percebermos o que é verdade e o que
é falso. Por isso a busca da verdade é a mais elevada
religião e a mente ávida é a real mente religiosa. A sabedoria é terminar o momento, descobrir o fim da jornada
a cada passo do caminho e viver grandes momentos de boas horas. |