O Futuro É Agora

P. Krishna

               Podemos dividir o mundo em duas partes: o mundo material, estudado pela ciência e o mundo interno de nossa consciência que, na maioria das vezes no momento, está além da ciência. Se observarmos o mundo material de espaço, tempo, matéria e energia que a ciência estuda em detalhes, certamente veremos que em todo universo há tremenda ordem, que certas causas tem efeitos definidos e que estes são governados por leis precisas. Assim, qualquer que seja a condição atual, o desenvolvimento futuro é determinado por estas leis e o único lugar em que há alguma incerteza é no mundo subatômico das partículas elementares. A extensão em que se desviam da certeza também é definida pela ciência. Na maioria das vezes não estamos lidando com partículas subatômicas, exceto em laboratórios experimentais, onde as leis são bastante determinadas.

               Os cientistas estudaram muitas leis, as físicas, as químicas e as biológicas que governam tanto a matéria animada como a inanimada. Podem explicar amplamente o comportamento dos corpos das planas, dos animais e também dos seres humanos. Se começamos com condições iniciais diferentes, o desenvolvimento será diferente, mas será governado pelas mesmas leis. A ciência afirma que estas leis são universais, são eternas e com base nestas afirmações podem projetar todo o desenvolvimento do universo. Isto ainda não é aceito em todos seus detalhes, mas a ampla estrutura é razoavelmente correta, porque explica e até prediz muitos fatos corretamente observados. Naturalmente há situações nas quais operam múltiplas forças e torna-se difícil predizer o que acontecerá no futuro, mas isto não significa que as leis não operem ou que o presente não molde o futuro.

               Disse Einstein: “Tudo é determinado por forças sobre as quais não temos controle; é determinado pelos insetos bem como pelas estrelas, seres humanos, vegetais ou poeira cósmica. Todos nós dançamos sob uma misteriosa melodia entoada à distância por um invisível flautista.”  Penso que isto não é inteiramente verdade para os seres humanos. Penso que Einstein não levou em conta a consciência humana, porque se ela também fosse predeterminada, não haveria coisas morais ou imorais, certo ou errado. Se um tigre mata outro animal é governado apenas por seus outros instintos e não há decisão de sua parte. No caso dos seres humanos os instintos tornaram-se tendências. E quando um cão late para nós, não nos sentimos agredidos, mas se nosso chefe grita conosco, ficamos ofendidos! Isto nos traz a questão: temos ou não livre arbítrio? Os seres humanos são livres ou as leis da física, da química e da biologia determinam totalmente, não apenas nosso corpo, mas também nossos pensamentos, nossas decisões e atitudes?

               Os próprios cientistas dizem que, se o nível do bióxido de carbono na atmosfera aumentar até certo limite, o conseqüente aquecimento global terá tais proporções que as calotas polares se derreterão, os mares serão inundados e haverá uma imensa catástrofe ecológica se continuarmos a viver como vivemos no momento. Até previram a data em que isto ocorrerá. Por isso alertam a não usar combustível fóssil e não jogar bióxido de carbono na atmosfera, e usar fontes alternativas de energia.

               Enquanto a evolução biológica é um fato e a evolução material também pareça um fato, isto também será verdade para nossa consciência e psiquê? Precisamos examinar isto detalhadamente. Os cientistas estudam a evolução biológica. Podem determinar a origem de diferentes espécies e o período em que existiram e descrever estes desenvolvimentos no tempo. A evolução biológica é amparada pelo estudo de fósseis em rochas, cuja evidência não pode ser refutada. Assim, há evolução no  conhecimento, há evolução no mundo material e há evolução biológica durante longos períodos de tempo.

               Também acontece o mesmo com nossa psiquê? O estado psicológico do ser humano de hoje é muito diferente daquele do homem primitivo, digamos, do homem de mil anos atrás? Eles formavam grupos, tinham apegos, ambições, desejos, medo, autoridade e domínio, e tudo de que ainda está na consciência humana. Após mil anos, o que desejamos agora pode ser diferente do que foi desejado antes, nossos grupos agora são de grande nações e não de tribos ou clãs, mas ainda estamos divididos em grupos. Cada ser humano ainda é apegado a seu grupo, trabalha para a prosperidade e melhoria desse grupo e para isso explora outros grupos. A fraternidade universal é uma nobre ideal proposto há milhares de anos, mas não se tornou um fato. Assim, parece que psicologicamente não crescemos; houve apenas uma pequena evolução psicológica. Certas formas de manifestação do ego ou formas extremas de egoísmo podem ter desaparecido: o colonialismo e a ocupação militar de outras nações quase desapareceram, mas a violência, a guerra, os tumultos e os crimes estão bem vivos. Constantemente os governos, as Nações Unidas e outras organizações não poupam esforços tentando controlar as manifestações deste estado psicológico. Significa que nosso estado psicológico produz as coisas que acontecem na sociedade. Por isso existem certas áreas nas quais dificilmente houve algum desenvolvimento no tempo.

               Tomemos alguns exemplos. Se observarmos a nosso redor, descobrimos que cada ser humano tem acesso a certas coisas, certo conhecimento, relacionamento, dinheiro e outras coisas, e há coisas que ele não tem. Todos nós estamos parados numa fila; de um lado estão as coisas a que temos acesso, e do outro as coisas a que não temos acesso. Cada ser humano está fazendo um grande esforço para empurrar a fila e trazer outro objeto para seu lado para que possa acessá-lo por prazer ou conveniência. E isto é o ele está fazendo há dez anos. Assim, toda humanidade parece estar no mesmo estado psicológico: descontente com o que tem e buscando algo que não tem. O solteiro procura uma esposa e provavelmente o casado quer se livrar da sua! Logo, varia o objeto do desejo, mas o desejo sempre está aí.

               Antes de começar a conquista do mundo, Alexandre foi a Diógenes, conhecido na Grécia como um homem muito sábio, para ser abençoado. Disse: “Aventuro-me no mundo e começarei pela conquista do Irã e do Oriente Médio.” E Diógenes lhe perguntou: “E o que fará depois disso?” Alexandre disse: “Bem, depois disso vou conquistar o Afeganistão.” “E depois disso, o que fará” e Alexandre respondeu: “Vou conquistar a Índia.” E Diógenes outra vez perguntou: “ E o que fará depois disso?” E Alexandre respondeu: “Vou conquistar a China.” “E o que fará depois disso?” “Bem, então talvez volte para casa.” Então Diógenes lhe perguntou: “O que o impede de fazer isto agora?”  Como Alexandre, também somos ambiciosos. Nossa sociedade estimula a ambição, a competição e todas as conseqüências do desejo. Quando desejamos algo que não temos, trabalhamos ambicionando consegui-lo, e poderemos ou não obtê-lo. Se não o conseguimos, ficaremos frustrados, depressivos. Se conseguirmos realizar nosso desejo, temporariamente nos sentimos realizados, o que alimenta nosso ego. Segue-se um período de estagnação, de pouca energia, porque o desejo desapareceu e ele nos dava energia. A situação é esta até que surja um novo desejo que nos dê energia. E este ciclo vai se repetindo muitas vezes! 

               Observe que em você e nas pessoas a seu redor, e verá que este é o estado humano normal. Logo, todas as conseqüências do desejo e da ambição estão aí, desde o tempo de Alexandre até agora! Portanto, a sociedade não mudou a este respeito. Agrupamentos, lutas, guerra, construção de armas de defesa, continua tudo que brota do estado psicológico de dividir ‘nós pessoas’ de ‘outras pessoas’.

               Não compreendemos em que base nossa mente define quem ‘nós’ somos e quem ‘eles’ são. Porque certas diferenças se tornam divisões e criam ódio, enquanto outras são aceitas apenas como diferenças? Por exemplo, não tivemos guerras entre pessoas altas e baixas, pelo menos até agora. Não somos tão tolos! Mas tivemos guerra entre um e outro grupo religioso. Os seres humanos não foram capazes de compreender este processo psicológico que converte as diferenças em divisões e que impede a fraternidade. Isto porque, quando odiamos alguém e sentimos que ele é nosso rival, não podemos ser fraternos. Podemos falar de fraternidade universal, mas enquanto a mente não se livrar da identificação com o ‘me’ e o ‘meu’, a fraternidade nunca se tornará um fato. Na verdade nunca se tornou um fato, sempre foi um objetivo, mesmo na Sociedade Teosófica. Simplesmente acreditar não o torna realidade.

               Internamente em nossa consciência, somos psicologicamente muito diferentes do homem de mil anos atrás? Não parece ser assim. Neste sentido, psicologicamente o futuro é agora. Porque se psicologicamente formos como o homem de mil anos atrás, outros dez mil anos se passarão e, se sobrevivermos, continuaremos a ser os mesmos. Pelos mesmos motivos que não mudamos em mil anos, não seremos capazes de mudar nos próximos mil anos.

               Isto significa que o tempo não ajuda a mudar o estado psicológico do ser humano. Neste sentido, o futuro é agora e não vamos depender do tempo para mudar. A transformação da consciência requer uma mutação que não é um processo no tempo. O que isto significa? Significa que a causa na consciência não se altera gradualmente com o tempo. Todas as emoções negativas como egoísmo, competição, rivalidade, inimizade, ódio, raiva, ciúme, tristeza, etc., resultam de algumas ilusões em nossa mente, e a menos que estas ilusões acabem, as emoções negativas não sumirão. Isto é o que Buddha dizia há mais de dois mil anos. Assim como os cientistas têm as três leis de Newton, temos três leis psicológicas. A primeira lei é que ‘o sofrimento existe’.

               Esta afirmação é de um fato observado. Se observarmos a consciência humana veremos que aí há muito sofrimento psicológico por que passam os homens. A segunda lei é que o sofrimento tem uma causa: a ignorância como ilusão é a causa do sofrimento. A terceira lei é o resultado da própria experiência e aprendizado. Buddha disse que a causa pode ser eliminada. E como a causa está na ilusão, ela pode ser eliminada. Não podemos nos livrar da dor no corpo, que é uma reação biológica produzida no corpo; mas o sofrimento emocional psicológico surge da ilusão e pode ser eliminado. A ilusão não existe na natureza, e não é governada pelas leis da natureza. É construída pelo pensamento e pela imaginação. Apenas a consciência humana é capaz disso, o animal não. Por isso não vemos animais fazendo guerra, não encontramos tigres dizimando e destruindo outras espécies.

               A ilusão pode findar pelo discernimento entre o verdadeiro e do falso. Por isso diz a Teosofia: “A verdade é a suprema religião”, ‘verdade’ como uma percepção, e não a ideia de verdade ou o conhecimento da verdade que é fácil obter. Podemos ler um livro de Buddha e livros escritos sobre Buddha e nos tornarmos um professor da filosofia budista, mas isso não vai transformar nossa consciência. O professor de filosofia budista tem a mesma consciência que eu e você. Tem tristeza, medo, ansiedade e ambição: seu estado psicológico não é diferente do dos outros. O que era diferente em Jesus e Buddha é que eles realmente sofreram uma transformação da consciência. Por isso, é necessário não apenas concordar com a idéia ou opinião, mas ter uma real percepção, como quando percebemos o perigo do fogo ou de um caminhão vindo em nossa direção. Aí não precisamos de nenhum argumento para nos afastarmos.

               C.W. Leadbeater escreveu um artigo dizendo que nenhum engenheiro jamais fez um modelo ou plano concluindo que a água fluiria para o alto da colina porque estava claro que isto não poderia acontecer. Mas quando escutamos discursos religiosos vemos as pessoas fazerem todo tipo de nobres afirmações enquanto suas vidas mostram justamente o contrário. Isto demonstra o que não está claro para elas;  apenas fazem uma ideação, um conceito a nível  do pensamento. Isto não se tornará uma realidade até que por si mesmas percebam esta verdade. A busca religiosa é para encontrar esta realização, isto é, sentir o perigo diretamente e não através de argumentos ou debates. A verdade, a nível de ideação, é apenas propriedade mental: a propriedade pode se acumular mas não transforma a consciência. Compreender a verdade significa que ela é real para nós, e não apenas uma ideia. Realmente esta é a essência da busca religiosa, que é a busca da sabedoria diferente da busca por conhecimento. Há muito pouca sabedoria na mente que vive com todo tipo de ilusões, porque vive num mundo imaginário que ela própria criou e não tem contato real com o mundo da natureza.

               Vejamos a natureza destas ilusões para ver esta verdade. Observamos que na Índia há um imenso problema de morte de fetos femininos; matam os bebês meninas antes ou logo que nascem. Por que as mulheres estão desaparecendo, produzindo um desequilíbrio que eventualmente terá conseqüências desastrosas?  Os homens não encontrarão mulheres para casar e isto produzirá todo tipo de violência, que já acontece agora. Quais são as ilusões por trás disto? Se examinarmos, veremos que temos todo tipo de falsas noções em nossa sociedade, apenas temos que aceitá-las sem questionar. Aceitamos porque todos a nossa volta acreditam. Um indiano pensa que seus filhos devem casar apenas dentro de sua casta; e é responsável pelo casamento de suas filhas dentro dessa casta, a última delas até os vinte e cinco anos. Em sua casta ele deve pagar um grande dote para conseguir um bom marido para sua filha. Por aceitar todas estas noções, sente que o nascimento de uma filha é um grande peso, enquanto o nascimento de um filho é uma garantia de que no futuro ele será responsável por toda família. O filho pertence a sua própria família, enquanto a filha após o casamento pertence a outra família. Para ele tudo isto parece ser realidade, embora sejam apenas construções da mente humana sem qualquer realidade na natureza. Assim, todas são ilusões.

               Alguém introduziu o sistema de castas na Índia, talvez há cinco mil anos. Até o Gita o menciona. Pode não ter sido na forma que tem hoje, mas o que existe agora na sociedade é a realidade; como era antes de cinco mil anos, não sabemos e não adianta especular. O fato é como está funcionando agora e que está criando muita discriminação, injustiça e crueldade. E podemos nos libertar disto? É algo atribuído à criança ao nascer; não existe na natureza. Quando nasce, é apenas uma criança: nem brhamana, nem sudra, nem cristã nem hindu; tudo isto é jogado sobre criança pela sociedade e nossa mente aceita isto. Desta maneira um indiano sente-se limitado. E por causa disso, mata suas filhas. Se apenas compreendêssemos que não temos que aceitar isto, poderíamos dizer que isto é falso. Mas o homem comum não está ciente de que na realidade todas estas ilusões em sua mente são a causa por trás da morte das filhas. O instinto natural, que até os animais têm, é proteger o filho, amar o filho, evitar perigo para o filho. Na verdade um homem trabalha muito duro para juntar o dote da filha, pensando que isto é bom para ela. Esta é a natureza da ilusão: quem está iludido não está ciente de que seja assim.

               Todo medo, injustiça e tristeza surgem apenas das ilusões da mente. 

               Isto é um exemplo do que Buddha ensinou: somos autores de nossos sofrimentos. E pensamos que os sofrimentos vêm de fora! Não aprendemos a nos observar e perguntar por que estamos sofrendo e qual é a ilusão de nossa mente. Ilusão significa aceitar como verdadeiro o que não é, e que não é um fato na natureza. Damos tremenda importância a algo que realmente não é importante.

               Mas o homem iludido não está ciente deste fato. Este homem sou eu e você. Podemos ser capazes de ver a ilusão de alguém, mas isto não significa que não tenhamos ilusões. Assim como o homem que dá um dote à sua filha, colocando-a em perigo, não nota que está iludido, e também nós, eu e você não estamos cientes das ilusões que temos – a menos que examinemos nossos sentimentos, vejamos de onde surgem e se for um sentimento negativo que surgiu de uma ilusão, podemos eliminar esta ilusão. Esta é a verdadeira busca teosófica. De outra maneira, não seremos livres. Podemos crer na fraternidade universal, podemos crer nisto ou naquilo, mas que diferença isto faz? 

               Faço uma pergunta que devem considerar: se um homem é egoísta, violento, ambicioso e cheio de ódio, qual diferença faz se for hindu, muçulmano, cristão, budista ou ateu? E se um homem for bondoso, generoso, pacífico, compassivo e carinhoso, que diferença fará se for hindu, muçulmano, cristão, budista ou ateu? Então porque damos esta tanta importância à afiliação de um ser humano?

               Li uma parábola interessante que revela como este tipo de classificação dos seres humanos em diferentes religiões, diferentes castas [grupos], produz conclusões absurdas. Jesus Cristo nunca vira um jogo de futebol e pediu a São Pedro: ‘Pode me levar a um jogo de futebol? ‘ São Pedro respondeu: ‘Claro, arranjo isto.’ E  levou-o para assistir a um jogo de futebol na Irlanda, onde o time dos católicos jogava contra o  dos protestantes. Jesus começou a olhar o jogo e ficou muito interessado, pois nunca vira este jogo. Após alguns minutos os católicos fizeram o primeiro gol e ele ficou excitado e gritou: hurra! jogou seu boné para o alto e bateu palmas mostrando sua alegria. O jogo continuou e ele continuava muito interessado, e desta vez foi o time dos protestantes que fez o gol. Novamente muito excitado, gritou ‘hurra’, bateu palmas e jogou seu boné para o alto. Vendo isto, um homem sentado a seu lado, intrigado com sua atitude, tocou no ombro de Jesus e disse: ‘Diga-me, de qual lado você está?’ Jesus respondeu ‘De nenhum lado, apenas aprecio o jogo!’ e o homem disse então: ‘Ah! Um ateu!’

               Continuamos com estas divisões, com ambições e desejos como partes inevitáveis da vida porque não examinamos com cuidado suas conseqüências e não sabemos se as coisas podem ser feitas sem ambições e desejos, apenas por gostarmos delas. Assim a mente continua com estas ilusões e as divisões e outras conseqüências continuam e não há uma mudança fundamental na sociedade. Neste sentido, o futuro é agora. A única maneira em que isto realmente pode mudar, tanto em nossa vida pessoal como na sociedade, é se tirarmos estas ilusões de nossa mente; mas a dificuldade é que não estamos atentos a nossas ilusões. As ilusões que sabemos que são ilusões não criam desordem: por exemplo, os contos de fadas.  Sabemos que não são verdade e quando sabemos que são apenas imaginários, por brincadeira podemos aceitá-los. Da mesma forma podemos ter belas poesias, metáforas e todas as coisas imagináveis, enquanto não as tomarmos como realidades. Se as tomarmos por realidade, elas se tornam uma ilusão e criam desordem na consciência. Como teósofos é importante que tenhamos uma mente aberta que faça a distinção entre o verdadeiro e o falso. Isto significa que quando temos uma emoção negativa, quer de tristeza, medo, ciúme, raiva ou ódio devemos nos indagar: ‘De onde surgiu isto, estou vivendo de maneira errada? Que ilusão em minha mente fez surgir estas emoções negativas?”

               Livrar-se das causas externas não é tão importante como eliminar as causas internas de nossa psiquê. Fomos treinados para sempre lidar com as causas externas, e por isso as causas internas continuam.

               A aprendizagem interna é muito mais importante porque ela sempre nos liberta. A tristeza não é encarada como um infortúnio, mas como uma oportunidade para aprendermos sobre nós.

               Somos autores de nossos próprios sofrimentos, por isso só nós podemos desfazê-los. Surgiram de nossos pensamentos, de nossas suposições e, se descobrimos suas conseqüências, estas ilusões cessam e há a possibilidade de uma verdadeira mudança. Esta mudança não vai acontecer no tempo, não acontecerá gradualmente. Ou percebemos a verdade ou não a percebemos. Não podemos descobrir vinte por cento da verdade, depois cinqüenta por cento e pouco a pouco chegarmos a cem por cento, como ir subindo numa montanha. Ora, a verdade entra na mente como uma revelação instantânea, uma profunda percepção que produz a mutação da consciência e quando isto acontece, estamos livres. O problema termina e não precisamos controlá-lo. Precisamos controlar o problema somente quando ele está surgindo, porque a causa ainda não foi eliminada.

               Por isso existem guerras no mundo, porque suas causas não foram eliminadas. Vejamos a situação do Oriente Médio, entre árabes e judeus. Os árabes dizem a seus filhos que os judeus são seus inimigos e os judeus dizem aos seus filhos que os inimigos são os árabes. Quando morrem os mais velhos, as crianças ficam com esta inimizade ensinada desde o berço. E como poderá findar esta divisão de ódio entre estas duas comunidades? Não findou nos últimos sessenta e cinco anos e a situação continua exatamente a mesma. Cada vez que surge um conflito, as Nações Unidas vão lá para estabelecer algum diálogo, fazer algum acerto, mas todas as vezes a pacificação não tem êxito. Certamente há uma causa mais profunda por trás disso, e enquanto não eliminarem esta causa, o efeito continuará a aparecer. O fato é que não há grande diferença entre árabes e judeus. Pensam que existe por terem diferentes religiões, crenças, apegos, hábitos, alimentos, etc. Mas estas são coisas muito superficiais; bem no fundo têm muito em comum. Têm os mesmos instintos, os mesmos problemas de desejo, ciúme, ambição, medo e tristeza porque são seres humanos. Sentem-se diferentes apenas porque dão tremenda importância a estas diferenças superficiais, mas isto é uma ilusão.

               Buddha ensinou a verdade de que o outro sou eu. Se não parece ser assim é porque a mente está cheia de ilusões que nos separam, e enquanto persistirem estas ilusões não haverá mudança no estado psicológico, não haverá evolução psicológica; por isso o futuro é agora. Há mudança real só quando percebermos o que é verdade e o que é falso. Por isso a busca da verdade é a mais elevada religião e a mente ávida é a real mente religiosa.

 

A sabedoria é terminar o momento, descobrir o fim da jornada a cada passo do caminho e viver grandes momentos de boas horas.