Teosofia e o Espírito Científico

P. Krishna

 

               Embora a ciência moderna tenha origem relativamente recente, tendo começado com Galileu a cerca de trezentos e cinqüentas anos, fez grandes progressos e transformou rapidamente nossa maneira material de viver. Nossa vida material mudou mais nos últimos cem anos do que nos mil anos precedentes devido ao conhecimento científico acumulado nestes últimos três séculos e suas aplicações em tecnologia. Assim o impacto da ciência na sociedade é bem visível: no progresso na agricultura, na medicina, na saúde, nas telecomunicações, nos transportes e na computarização de muitas áreas, tudo evidente em  nossa vida diária.

               A despeito de todo este progresso e conseqüente desenvolvimento da tecnologia, da indústria e suas facilidades, o conforto e poder que obtivemos por este conhecimento, os seres humanos não estão felizes nem em paz consigo mesmos nem vivem sem violência em nenhuma parte do mundo. Esperava-se que o desenvolvimento da ciência conduziria a uma era de paz e prosperidade, mas isto não aconteceu. Ao contrário, se observarmos o nível de violência no mundo em todos os países, no período de 1900-1910 ou 1910-1920, em cada década o gráfico vai subindo. Se por um lado temos grande prosperidade – chamada de globalização – por outro lado temos mais violência, infelicidade, tensão e novas doenças!

               Krishnamurti levantou a questão: Houve evolução psicológica nestes últimos dois ou cinco mil anos? A ciência gerou um tremendo poder; o conhecimento sempre dá poder e é útil porque aumenta nossas habilidades. Mas, quando não temos sabedoria, amor, compaixão e fraternidade, que são subprodutos da sabedoria, o poder pode ser usado destrutivamente. Atualmente, sessenta e cinco por cento de todas as pesquisas científicas são feitas direta ou indiretamente para desenvolver armamentos e em todas as nações mantidas por seus Ministérios da Defesa. No último século, 208 milhões de pessoas morreram em guerras, o que é sem precedente em qualquer outro século.

               A humanidade merece ter o conhecimento produzido pela ciência? Não deixamos as crianças brincar com fogo porque podem começar um incêndio ou se queimarem. E a humanidade não é como uma criança sem sabedoria? Há ódio em nossas motivações, nos separamos em grupos – de castas, de nações, de línguas, de religiões etc. É responsabilidade dos cientistas produzirem conhecimento que dão cada vez mais poder a quem não tem sabedoria para usá-lo retamente? Do ponto de vista teosófico, a responsabilidade é universal. Por isso não podem dizer: ‘Sou responsável apenas pelo conhecimento científico’ Também somos responsáveis pelo todo da sociedade, toda a humanidade e até por toda terra. Vivemos numa era científica, mas o que é tão importante na era científica? Usamos as descobertas da ciência para sermos mais protetores, bondosos e gentis? Ou produzirmos maior prosperidade e paz?

               Estivemos em guerra por milhares de anos, mas agora temos armas nucleares. Numa palestra Joy Mills disse: ‘É importante pensar em nosso próximo passo, e antes de darmos o próximo passo, estar seguros de ter uma visão ampla para dar a direção correta a esse passo.’ O novo conhecimento, isto é, o novo passo está na direção certa? Através da engenharia genética poderemos ter novo poder, mas podemos garantir que usaremos este poder em benefício da humanidade e da terra? Não podemos ter certeza. Se não podemos, quem será responsável? Ainda assim, todas as nações do mundo gastam imensas quantias para desenvolver o conhecimento científico como se fosse nossa prioridade. Os problemas do mundo de hoje são causados por não termos aviões ou computadores suficientemente rápidos? Naturalmente não. Os problemas são devidos à falta de compreensão da vida e do estado psicologicamente primitivo em que nos encontramos.

Einstein disse que soubesse que sua equação E=mc², que comprova a grande verdade da natureza, que a massa é apenas outra forma de energia – seria usada para fabricar bombas atômicas e matar muitas pessoas no Japão, ele nunca teria feito a pesquisa ou publicado suas conclusões. Isto é algo que aconteceu no último século. Assim, porque ter ciência?

Certamente temos que distinguir ciência de tecnologia. A ciência é a busca pela verdade na natureza. Seu objetivo não é produzir tecnologia, mas para compreender como a natureza opera e descobrir a tremenda ordem e inteligência operando a nosso redor. Se a natureza fosse caótica, se às vezes as pedras fossem para cima e outras vezes para baixo, aí sim não haveria ciência. Mas causas definidas produzem efeitos definidos e é por isso que a ciência é possível. O cientista não cria a ordem, ele simplesmente a estuda. Vivemos num universo muito inteligente. Um milhão de coisas ocorrem em perfeita ordem em nosso corpo sem qualquer esforço ou consciência voluntária de nossa parte, mas não descobrimos a ordem na consciência que é virtude, paz de espírito, amor, felicidade, compaixão, não violência nem conflitos. Sócrates disse que há apenas uma virtude – e esta é a ordem na consciência, embora possamos descrevê-la com palavras diferentes em situações diferentes. E a busca pela verdade e sabedoria, que é a essência da teosofia, é a busca pela ordem na consciência e para chegar à virtude.

A humanidade teve êxito na busca pela ciência porque aí há ordem. Newton apenas descobriu a gravidade que existia há milhões de anos antes dele, e sempre existirá. As leis da natureza não dependem do cientista. Se perguntarem porque a natureza tem ordem o cientista não poderá responder. Pode apenas dizer: ‘estudo a natureza, observo-a e descubro que aí há ordem e depois estudo as leis que governam esta ordem’. O técnico toma o conhecimento que o cientista descobriu e o usa para fazer armas, carros e gerar energia. A tecnologia é um subproduto da ciência, mas a ciência é a busca pela verdade na natureza.

Antes de Faraday, que descobriu o eletromagnetismo, se pensava que a eletricidade e o magnetismo eram duas coisas completamente separadas. Mas ele descobriu que se coloca um magneto sobre um fio metálico, a corrente gerada no fio é vista no galvanômetro pelo fator de desvio. Ele ficou muito intrigado com esta descoberta e quando a demonstrou numa palestra, alguém perguntou: ‘tudo isto está claro, mas para que serve esta descoberta?’ Ele respondeu: ‘é como um bebê. Para que serve um bebê?’ Hoje sabemos que esta descoberta possibilitou o microfone, as luzes e os ventiladores, motores de carro e aviões etc. Mas este não foi o motivo que levou Faraday a esta descoberta; ele apenas estudava a natureza.

Os seres humanos usam o conhecimento obtido pela ciência e decidem que tipo de aplicação terá. Se houver sabedoria o conhecimento não será usado com propósitos destrutivos. Mas se não houver sabedoria, o conhecimento será usado de maneira destrutiva para a violência e egoísmo. A história mostra que o homem o usou e ainda usa, primeiro para destruir antes do que para construir, levando nosso planeta e nossas vidas a um nível de perigo que nunca antes existiu. Os cientistas dizem que se a terceira guerra mundial ocorrer, ela deverá ser a derradeira. Portanto, como teósofos interessados em sabedoria, se há algo a aprender da ciência, como podemos ter uma compreensão mais profunda da vida e de nós? A ciência ou o conhecimento científico não trata de valores, do que é certo ou errado – nem diz o que se deve fazer. O conhecimento científico sobre valores é neutro. Mas devemos descobrir o que é o espírito científico, porque em qualquer atividade o espírito sempre será mais importante do que a técnica, o conhecimento ou método.

Embora na sociedade valorizemos o conhecimento científico e suas aplicações na tecnologia, realmente não valorizamos o espírito científico porque é erroneo dizer que somos uma sociedade científica. Somos uma sociedade não científica. A ciência diz que toda terra é una, que todos somos cidadãos deste planeta, e que somos nós que nos dividimos e dizemos:’Esta é minha cultura, este é meu país e lutarei só por isto’ Para beneficiar nossa nação temos exércitos para explorar outras nações. Tudo isto não é científico. A guerra não tem espírito científico.

Isto também é verdadeiro para muitas coisas em nossa vida. Há o espírito da religião, que é sabedoria, e há a forma externa ou estrutura da religião, os rituais, a maneira de rezar, as crenças etc. Os rituais sem o espírito nada significam, são vazios. O espírito artístico é a percepção sensitiva da beleza na escultura, nas pinturas etc. onde também há a técnica. Pode se aprender a técnica, mas se não existir o espírito, ela não revelará o verdadeiro artista. Há o espírito da educação, a visão e também a técnica da educação que depende de como se encara a educação, se é apenas um treinamento para alguma profissão ou se deseja revelar todas as potencialidades do educando. Se não houver visão, a técnica, o método e os passos são errôneos. O caminho se torna mecânico.

E a respeito do espírito científico? O que é valioso para aprender da ciência? Para compreender isto tomemos um exemplo de determinada ciência que todos conhecem, a física, básica a todas as ciências. Começamos a observar, porque para compreender qualquer fenômeno na natureza precisamos fazer cuidadosa observação, honesta documentação, medidas e anotações. Depois, com muitos dados coletados sobre o fenômeno buscamos correlações entre eles. Dos dados encontrados empiricamente são estabelecidas correlações entre duas variáveis e então o observador conjetura acerca da realidade subjacente que seria a causa destas correlações. Isto é o que o físico chama de ‘modelo’ – onde seu insight ou seu gênio se manifesta, porque tem que conjeturar sobre o desconhecido.

Sempre que os cientistas falam de teorias, de realidades, eles falam de um modelo imaginário subjacente à realidade. Na verdade ninguém viu elétrons girando ao redor de um núcleo dentro de um átomo. Esta é uma conjetura, um modelo da realidade subjacente. A este modelo, aplicam a lógica, usando as leis do conhecimento existente, determinado em pesquisas prévias e a forma peculiar de lógica matemática, que é um produto da mente humana. E deduzem então uma ‘teoria’, tentam explicar todos os fatos observados e predizer novos fatos que não foram até então observados. E novamente voltam às observação e experiências para comprovar se suas previsões estão corretas. Se os valores experimentais não corresponderem aos valores previstos, eles modificam o modelo ou o descartam e recomeçam tudo de novo. É uma busca profunda porque não aceitam a realidade como a vêem. Dizem que há uma realidade subjacente não visível e que vão achá-la. Mas, como não é visível, têm que conjeturar, imaginar e este é o modelo.

Normalmente o modelo dá resultados bastante corretos e apenas devem modificá-lo e fazer modelos sucessivos que ficam cada vez mais próximo à realidade. De alguma maneira a natureza comprova a matemática, o que realmente é um mistério. Galileu disse que a matemática é a linguagem com que Deus fez o universo e isto parece ser verdade. A matemática desenvolvida pela mente humana realmente se ajusta. Einstein podia produzir duzentas páginas de equações matemáticas oriundas de certa hipótese, usando as conhecidas leis da natureza e depois deduzindo que quando a luz chega mais perto de uma estrela, ela se curva e calculava esta curva. Quando, vinte anos depois, após de muito avanço tecnológico, se pôde fazer a experiência, descobriram que realmente a luz se curva na medida que Einstein calculara, o que significa que estas duzentas páginas de matemática se aplicam à natureza. Mas se perguntarem: ‘porque se aplicam?’ Nós não sabemos. Se perguntarem porque existem leis, nós não sabemos, se perguntarem porque a natureza é ordenada, nós não sabemos.

O espírito científico tem muita humildade. Começa dizendo: ‘Não sei a verdade acerca da natureza. Faço uma conjetura e encontrei um método pelo qual posso testar se esta conjetura é ou não correta e até que ponto é correta.’ E assim é como progrediu a ciência – por não aceitar fonte autorizada. Um jovem estudante pode questionar Einstein e indicar um erro, e Einstein concordará com ele: ‘sim, você está certo, eu errei’ Assim, nada é aceito pela autoridade. A ciência exige provas, observação, testes com experiências e a verdade deve ser algo universal, algo que possa convencer todo mundo. Naturalmente eles próprios se limitam ao estudarem os fenômenos mensuráveis.

E na vida há muito que não é mensurável. Este é o campo da religião. Mas aí existem muitos valores inerentes, que podemos tomar da ciência. Como dissemos, um é a humildade. Os cientistas não são humildes, mas a ciência é. Encoraja a observação, o questionamento, a dúvida e a verdade que é a mesma para todos. Não existe verdade americana ou verdade indiana. Não existe matemática indiana e matemática americana. A pedra é atraída pela terra e existe a gravitação, ou não existe; não pode existir para indianos e não existir para americanos. Portanto é uma atividade global, um diálogo entre milhares de pessoas que nunca se encontraram, porque esta experiência pode ser repetida em outro país por outro grupo de cientistas. E eles realizam e publicam resultados que são divulgados para todos. Há um processo de diálogo e correção constantes.

Portanto, a verdade é global, universal; não é propriedade privada de qualquer indivíduo. É a mesma para todo mundo. Estes são os valores que constituem o espírito científico. Ao surgir uma disputa não usam violência nem autoridade. Assim, seu espírito é de não-violência, de diálogo. É também um esforço verdadeiramente democrático baseado em cooperação, humildade e respeito mútuo. Todos os cientistas podem não ser verdadeiros cientistas se não trabalharem com este espírito, mas idealmente a ciência é feita desta maneira. Infelizmente os cientistas adotam a política do laboratório, mas não em sua casa ou em sua vida. Krishnamurti afirmou: ‘A mente científica é parte da mente religiosa, mas a mente religiosa não é parte da mente científica.’ Para desvendar a verdade acerca da natureza esta mente científica é competente; a mesma abordagem também é válida para descobrir as verdades religiosas. As verdades religiosas também são universais, não diferem para pessoas diferentes. Este é o lema da Sociedade Teosófica: ‘Não há religião superior à verdade’.

Não vimos a verdade; ela é desconhecida para nós, mas podemos com humildade inquirir e dialogar acerca de nossas percepções, duvidar delas e então descobrir por nós mesmos qual é a verdade. A teosofia é essencialmente a busca pela sabedoria, e sabedoria significa entender a natureza mais profunda das coisas. Isto é precisamente o que também faz o cientista.

A ciência é ensinada como uma técnica para conseguir nosso propósito. A ciência tornou-se uma serva da sociedade. Os políticos, ilogicamente, irracionalmente, de acordo com caprichos, decidem declarar guerra e os cientistas, como empregados, os ajudam no que precisam, no que o  governo tem necessidade. A ciência não é mais o arquiteto da sociedade, e os estudantes aprendem os conhecimentos e técnicas da ciência sem absorver seu espírito.

O mesmo erro é feito a respeito da religião; não absorvemos o espírito da religião. Quando realmente nos importamos com o espírito e investigamos mais fundo, descobriremos que o verdadeiro sentimento religioso e o espírito científico não estão separados. Na verdade, grandes cientistas como Einstein e Shrödinger chegaram ao sentimento religioso através da ciência, através da percepção da beleza na natureza. Qualquer aspecto da terra ou deste universo que examinemos profundamente – quer a mente humana ou uma árvore – descobriremos belezas maravilhosas. Quando formos fundo, a verdade se torna beleza e beleza, verdade, que também é sabedoria. A compreensão superficial de nós, da religião ou do significado da ciência, é o inimigo do homem. Teosofia realmente é ir fundo, em qualquer que seja a área. Nas profundezas há sabedoria.

 

 

 

Só a divina filosofia, a mistura do espiritual e psíquico do homem com a natureza que, ao revelar as verdades fundamentais que se escondem sob os objetos dos sentidos e percepção, pode promover o espírito de unidade e harmonia, a despeito da grande diversidade das crenças conflitantes.